12 de out de 2008

...HISTÓRIAS DA VANDA...







PÉROLAS NA REDE

Ser professor tem lá suas vantagens. Podemos, por exemplo, assistir a um espetáculo que se descortina todos os dias: a descoberta do poder que as palavras têm. Quando uma criança percebe que escrever vai além de juntar letrinhas, e que um pensamento pode ser materializado na combinação desses símbolos, acontece algo maravilhoso! É como se o lápis fosse uma varinha de condão.


Foi assim com a *Estela, quando escreveu um bilhetinho de amor para o *Rodolfo, expressando seu mais puro sentimento. E quando a *Bruninha descobriu que podia desabafar sua raiva, escrevendo num diário o que sentia quando os coleguinhas a magoavam? A *Sandrinha achou o máximo deixar um recado para a avó no ímã da geladeira, dizendo que ia passar o fim-de-semana na casa dela...


Engraçado mesmo foi ler a receita de remédio que o *Tiago deixou sobre minha mesa quando fiquei resfriada e estava com uma tosse de cachorro!!!
- Tia, pode fazer que dá certo!
- Mas como é que eu faço esse cordão de sabugo de milho?
- É do jeito que está escrito aí: corta um sabugo em três partes, fura com arame no meio e passa a linha, faz um cordão e põe no pescoço.
- E isso funciona mesmo?
- É tiro e queda, professora!


Às vezes aconteciam coisas estranhas. Eu não compreendia, por exemplo, quando os alunos escreviam “Sr. João” ou “Sr.Antônio” quando eu perguntava qual era o nome do nosso “país” (descobri, posteriormente, que eles liam “pais”). Teve também o *Diego, que escreveu “OIRF” e “OXIAB” numa atividade sobre antônimos:
- Mas... dar o antônimo de uma palavra não é escrever o contrário, professora? – Disse inocentemente.


E a *Elizângela, que não se conformava que “rosto” era “face”:
- Tia, você falou que a cara da gente é “rosto” ou “face”, mas é “alface” ...


Nas aulas de Ciências, descobrimos “doenças novas”. O *Juquinha escreveu diareia no lugar de diarréia:
- Doença de areia?!?- A turma gritou.


Risos à parte, aprender nossa língua é uma aventura! É gostoso ver, por exemplo, os alunos produzindo uma poesia sobre seu cachorrinho, ou gatinho, ou peixinho, colocando no papel aquilo que sentem lá dentro, por puro prazer e não apenas porque alguém pediu. Dessa forma, os erros que eles cometem não devem ser encarados como retrocesso, mas como indícios ou pistas que demonstram sua forma de pensar sobre a escrita. E isso, mais do que nunca, tem que servir de substrato para o trabalho do professor.


Depois de uma intensa manhã de trabalho, saí da escola pensando na receita do *Tiago para melhorar minha tosse, quando avistei um belo exemplar de Vira-latas no meio da rua...com um cordão de sabugo de milho no pescoço. Fiquei sabendo, mais tarde, que era uma simpatia pra curar “gogo” ...



*os nomes que aparecem na história são fictícios.

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