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1 de dez. de 2008

Relatando a prática

Histórias da Vanda


O EMOCIONÔMETRO

Manhã de sexta-feira. Após exaustiva semana de
trabalho, fiz uma triste constatação: meus alunos estavam ficando cada dia mais agressivos uns com os outros. Parecia que o nosso combinado de início de ano (aquele com as regras da sala, onde todo mundo se propõe a cooperar para o bom andamento das atividades da sala de aula), havia sido esquecido. A impressão que eu tinha é que se eu me ausentasse da sala por alguns instantes, eles partiriam para agressões físicas.

Assim, a famosa pulga que vive
atrás da minha orelha soprou que eu precisava urgentemente de um projeto que envolvesse as “emoções” das crianças. Lendo alguns livros e reportagens, encontrei o relato de uma professora que
usava uma espécie de “medidor de emoções”- o Emocionômetro – um cartaz com o nome de alguns sentimentos como
raiva, esperança, tristeza, etc., relacionados a várias cores. Por exemplo:
a cor vermelha significava vergonha, o verde esperança, o branco calma, o azul paz... e assim por diante, cada sala podendo criar seu próprio código.

Na segunda-feira, começamos a aula com a leitura de um texto sobre uma luz que se acende dentro da gente quando temos sentimentos bons. Disse-lhes que eu estava triste e que não sabia por que a minha “luzinha interior” estava apagada. Então, colei o Emocionômetro na parede da sala, dizendo que eu estava “cinza” (triste). Pedi que lessem, a seguir, o nome de cada sentimento e sua cor.

Cantamos a música do Arco-íris da Xuxa, que fala sobre a energia das
cores e tudo foi transcorrendo normalmente, até que uma aluna disse em
tom fúnebre que estava preta (muito triste), porque seu cachorrinho havia morrido. E assim as crianças foram relatando, uma a uma, como estavam se sentindo naquela manhã . Umas estavam verde(esperançosas), pois iriam receber visitas ou presentes. Outras estavam laranja (alegres) e outras roxas (com raiva).

Nesse momento, procurei focar as relações em sala de aula, perguntando como se sentiam em relação aos colegas. Foi um desabafo geral. Surgiram queixas de xingamentos, implicâncias e até tapas no recreio foram relatados. Quando terminaram de falar, perguntei como se sentiam após essa experiência. Algumas disseram que estavam aliviadas. Outras ainda guardavam uma pontinha de rancor, apesar de perceberem que o clima havia mudado.

Durante aquela semana, combinamos conversar com o
colega em português, e não em “chutês ou soquês” (língua dos chutes e socos), e que todos deveríamos relatar para a turma a cor em que nos
encontrávamos naquele dia, ou seja, como estávamos nos sentindo. Se alguém dizia que estava roxo, tentávamos fazer aquela pessoa mudar de cor enviando recadinhos ou balinhas com frases encantadas como:
“Sou seu amigo”, “A vida é legal”, “Tente outra vez”, etc. Como eles estavam com muita raiva acumulada, precisamos usar um artifício complementar.

Levei uma lata pintada de preto, com algumas cobras e lagartos desenhados de amarelo, que as crianças logo apelidaram de “latinha da raiva”. Assim, quando a ofensa era muito grave ou quando alguma criança tinha vergonha de relatar em público o seu sentimento, ela podia escrever suas emoções num papelzinho e jogar dentro da lata, como se estivesse se desfazendo daquilo que a atormentava. Em casa eu destruía todos os papéis e só lia em segredo aqueles que as crianças permitiam. Algumas só rabiscavam o papel.

Com o tempo, todos nós fomos aprendendo a dizer o que sentíamos. A
quebra de regras diminuiu na mesma proporção que a agressividade entre os alunos. Porém, quis fazer um teste com eles e escondi a latinha da raiva dentro do armário, já que ela não estava sendo muito usada. Numa sexta-feira, após uma outra semana de trabalho, um aluno chegou ao meu ouvido e disse preocupado:
- Ô tia, cadê a latinha da raiva?
- Ora, por que você está amarelo (preocupado)? – Perguntei-lhe.
- É que eu preciso da latinha emprestado pra mostrar pra minha mãe onde a gente despeja a raiva da gente...
Valeu ou não valeu?



23 de nov. de 2008

Histórias da Vanda

FELIZ DIA DO PROFESSOR!


Todos os anos, no dia do Professor, fazemos uma atividade muito interessante em sala de aula: entrego uma folha em branco para cada aluno escrever meus defeitos e qualidades. É preciso muita coragem, pois criança não mente e fala o que sente. Porém, é gratificante e curioso observar como as crianças enxergam a pessoa do professor.

A classe fica em silêncio. Você fica no meio da sala e as crianças ali, te observando, escrevendo, às vezes rindo sarcasticamente, outras vezes escrevendo quinhentas vezes uma idéia que não quer calar...
Após recolher as folhas, digo que vou ler em casa . Depois, com calma, vou lendo aqueles relatos sinceros:

“ Minha professora às vezes é calma, às vezes é brava, mas eu gosto das aulas dela.” É...posso dizer que esse aluno percebeu que o professor é um ser humano e que os dias não são todos azuis...Mas é preciso tomar cuidado para que a variação de humor não atrapalhe a qualidade das aulas.

“ Gosto de ouvir minha professora contar histórias, porque eu fico imaginando tudo na minha cabeça.” Puxa, que comentário legal! Acho que mais algumas crianças também gostaram dessa parte. Vou ler mais livros para ter mais histórias para contar.

“ Aprendi a escrever historinhas com a tia. Ela falava que eu escrevia só duas linhas, agora eu escrevo mais de dez! “ Bom, às vezes é preciso ter cuidado com as palavras. Será que falei sem pensar? Mas valeu o toque. Acho que a quantidade de linhas de um texto não tem tanta importância assim, mas da próxima vez vou deixar isso mais claro.

“ Gostei de fazer pesquisa no quintal. Eu aprendi sobre os seres vivos.” Que gracinha! Esse aí vai ser cientista!

“ Não gosto quando a minha professora passa muito dever no quadro.” Será que nossos alunos estão ficando preguiçosos ou nossas aulas menos atrativas? Tenho que dosar melhor as atividades escritas para não haver cansaço.

“ Quando a gente não sabe o dever, a professora ensina até a gente aprender.Ela não desiste! “ Puxa, acho que esse comentário me deixou emocionada... Esse é o verdadeiro sentido da profissão de professor:não desistir de ensinar.

Ao final, porém, um comentário chamou-me a atenção:

“ Minha professora sempre chega sorrindo.” Acho que eu mesma nunca havia me dado conta disso. Essa atitude positiva despertou algo de bom nessa criança. Será que vou conseguir manter esse sorriso até a hora da saída? Creio que, com a ajuda de Deus, com um bom Planejamento e muita força de vontade, vou continuar tendo orgulho de ser professora!

12 de out. de 2008

...HISTÓRIAS DA VANDA...







PÉROLAS NA REDE

Ser professor tem lá suas vantagens. Podemos, por exemplo, assistir a um espetáculo que se descortina todos os dias: a descoberta do poder que as palavras têm. Quando uma criança percebe que escrever vai além de juntar letrinhas, e que um pensamento pode ser materializado na combinação desses símbolos, acontece algo maravilhoso! É como se o lápis fosse uma varinha de condão.


Foi assim com a *Estela, quando escreveu um bilhetinho de amor para o *Rodolfo, expressando seu mais puro sentimento. E quando a *Bruninha descobriu que podia desabafar sua raiva, escrevendo num diário o que sentia quando os coleguinhas a magoavam? A *Sandrinha achou o máximo deixar um recado para a avó no ímã da geladeira, dizendo que ia passar o fim-de-semana na casa dela...


Engraçado mesmo foi ler a receita de remédio que o *Tiago deixou sobre minha mesa quando fiquei resfriada e estava com uma tosse de cachorro!!!
- Tia, pode fazer que dá certo!
- Mas como é que eu faço esse cordão de sabugo de milho?
- É do jeito que está escrito aí: corta um sabugo em três partes, fura com arame no meio e passa a linha, faz um cordão e põe no pescoço.
- E isso funciona mesmo?
- É tiro e queda, professora!


Às vezes aconteciam coisas estranhas. Eu não compreendia, por exemplo, quando os alunos escreviam “Sr. João” ou “Sr.Antônio” quando eu perguntava qual era o nome do nosso “país” (descobri, posteriormente, que eles liam “pais”). Teve também o *Diego, que escreveu “OIRF” e “OXIAB” numa atividade sobre antônimos:
- Mas... dar o antônimo de uma palavra não é escrever o contrário, professora? – Disse inocentemente.


E a *Elizângela, que não se conformava que “rosto” era “face”:
- Tia, você falou que a cara da gente é “rosto” ou “face”, mas é “alface” ...


Nas aulas de Ciências, descobrimos “doenças novas”. O *Juquinha escreveu diareia no lugar de diarréia:
- Doença de areia?!?- A turma gritou.


Risos à parte, aprender nossa língua é uma aventura! É gostoso ver, por exemplo, os alunos produzindo uma poesia sobre seu cachorrinho, ou gatinho, ou peixinho, colocando no papel aquilo que sentem lá dentro, por puro prazer e não apenas porque alguém pediu. Dessa forma, os erros que eles cometem não devem ser encarados como retrocesso, mas como indícios ou pistas que demonstram sua forma de pensar sobre a escrita. E isso, mais do que nunca, tem que servir de substrato para o trabalho do professor.


Depois de uma intensa manhã de trabalho, saí da escola pensando na receita do *Tiago para melhorar minha tosse, quando avistei um belo exemplar de Vira-latas no meio da rua...com um cordão de sabugo de milho no pescoço. Fiquei sabendo, mais tarde, que era uma simpatia pra curar “gogo” ...



*os nomes que aparecem na história são fictícios.

12 de set. de 2008

HISTÓRIAS DA VANDA


O TOMBO DA PROFESSORA

Para chegar à Escola, podíamos passar por dois caminhos: a estrada, cujo percurso demorava uns 15 minutos, ou a pinguela, que desembocava na rua principal da vila. Na verdade, essa pinguela era um tronco de coqueiro deitado sobre um córrego. Havia muita lama nas margens e focos de Shistosoma mansoni. Particularmente, não gostava de seguir por esse atalho, mas quando era preciso poupar tempo, a pinguela era a solução.

Num dia de muita chuva, o caminhão que fazia nosso transporte chegou atrasado. Os alunos já aguardavam as professoras do outro lado da pinguela. Encharcada e com quatro bolsas nas mãos iniciei a travessia.

Enquanto andava sobre aquele tronco, lembrei que precisava tomar uma importante decisão a respeito do trabalho com as crianças. Eu vinha enfrentando sérios problemas de disciplina. Na verdade, eu não estava conseguindo “vender meu peixe”...

Naqueles poucos segundo de travessia, um turbilhão de pensamentos tomou conta de minha cabeça. Quando estava quase terminando meu percurso, faltando apenas alguns passos, aconteceu o pior: escorreguei! Sujei-me completamente, mas salvei as bagagens! Alguém gritou: “A professora caiu!”

Por causa de uma crise de risos, não conseguia levantar-me da lama. Praticamente fiquei encalhada. Alguns alunos vieram ao meu socorro.

No rosto dos alunos havia um ar de riso preso, como se quisessem caçoar de mim. Porém, sem nada dizer, escrevi no quadro algumas palavras inventadas momentaneamente. Pedi que copiassem. Apaguei o quadro e pedi que desmanchassem tudo. Alguns reclamaram, mas não dei ouvidos e pedi que copiassem uma lista de palavras do livro. Uma aluna quis falar, mas não permiti. Até que um deles esbravejou: “Qual é, tia, a senhora esqueceu como é que se dá aula?”

Questionei, então, sobre como se sentiam naquele momento. É claro que estavam incomodados com aquela situação. Disse-lhes, então, que eu sentia a mesma coisa quando não me respeitavam. Exprimi-lhes meu descontentamento com suas atitudes ofensivas, alguns ficaram perplexos. Pareciam cair em si, assim como eu havia caído da pinguela.

Conversamos sobre regras e sua necessidade para um bom convívio social. Convidei uma aluna para anotar nossas conclusões e assinamos um “combinado”, no qual estavam descritas as novas normas da sala. Passei tudo para um cartaz que ficou exposto na parede até o fim do ano letivo.

Apesar de algumas regras terem sido modificadas com o tempo, todos nós aprendemos a lição: a base de todo relacionamento é o RESPEITO. Deixamos as gritarias de lado e diminuímos as exclusões. Quando alguém quebrava alguma regra, a própria turma interferia e chegávamos a um consenso.

Na última semana letiva, fizemos um balanço geral do ano, relatando os pontos positivos e negativos. Cada um escreveu sua opinião num formulário que criamos. Ao ler um deles, dei uma imensa gargalhada. Lá no meio da lista de pontos positivos um aluno escreveu: “o tombo da professora”.


CONTINUANDO COM AS HISTÓRIAS


DIAGNÓSTICO PRECIPITADO


Meu sobrinho apresentava problemas na escola. Segundo a professora, ele não gostava de estudar e ficava cantando na hora da aula, atrapalhando a turma. Na tentativa de compreender a situação, chamei o garoto para conversar
- Por que você não quer fazer os deveres que a professora passa?
- Ah, é porque eu já sei tudo o que ela dá...
- Que atividades você já sabe?

Pegando algumas folhas na mochila ele passou a desenhar vários (es) e (emes), ou seja os velhos e tradicionais exercícios de coordenação motora.

Perguntei-lhe se já conhecia as letras. Ele respondeu que sim,que já conhecia o alfabeto todinho. Então perguntei se já sabia juntar as letras. E ele não só me respondeu afirmativamente como também, começou a escrever várias palavras alfabeticamente.

A essa altura, minha cunhada já estava mais calma e relatou-me que ele havia aprendido a ler e escrever sozinho, depois de ter contato com livros, jornais, letreiros de lojas ,etc. No entanto, ela jamais imaginou que fosse ter problemas na escola.

Ora, sabemos que as crianças não são folhas em branco onde podemos riscar à vontade, ou blocos de argila que moldamos a nosso gosto. Por trás daquele lápis há um ser pensante, um sujeito ativo, coadjuvante no processo ensinar/aprender. Quem alfabetiza precisa conhecer o caminho que a criança percorre para aprender a ler e escrever; precisa ler grandes autores e autoridades em educação. Enfim, tem que acompanhar as mudanças sociais, políticas e filosóficas. Ignorar o que a criança já sabe quando chega à Escola é ignorar tudo isso.

Antes de ir embora, meu sobrinho fez uma confidência:
- Ah, tia, teve um dever que eu achei legal!
- Puxa, qual foi?
- Esse aqui, ó! ( Mostrou-me uma folha com os números 1-1-1-1-1 no alto da página. A atividade proposta era a repetição do número 1, ou seja, a unidade, devendo o aluno copiá-lo dezenas de vezes até encher a folha).
- Ora, mas por que você achou esse dever legal? (Eu estava curiosíssima!).
- É porque esse aqui é mais difícil. É pra gente fazer o número “onze mil cento e onze”!

25 de ago. de 2008

HISTÓRIAS DA VANDA


O PRIMEIRO GRITO DO IPIRANGA

Semana da Pátria. A Diretora queria um desfile impecável dos alunos pela única rua da vila. Minha irmã e eu trabalhávamos na mesma escola, em turnos diferentes. Era a nossa primeira “Independência”... No entanto, era necessário relacionar esse tema cívico às aulas de leitura e produção de texto. Afinal, alfabetizar e desenvolver senso crítico são assuntos afins.
O trabalho com as crianças envolveu desde a pesquisa em enciclopédias até entrevistas com pessoas comuns para saber o que era civismo. Foram produzidos textos, desenhos e um mini-livro sobre civismo. As bandeirinhas do Brasil desenhadas pelas crianças ficaram uma graça! Fizemos até concurso de frases! Porém, faltava realizar algo mais convincente, como um ato público, por exemplo.
Numa das reuniões pedagógicas, relatamos às demais professoras nosso anseio por independência. Depois de muita discussão, decidimos que o problema “transporte” era prioridade. Andávamos em caminhões, pois os ônibus não atendiam ao horário das aulas. Chegávamos atrasadas às segundas-feiras, empoeiradas e desanimadas pelos percalços. Clamaríamos, portanto, uma solução às autoridades. Dessa forma, tramamos confidencialmente dar nosso grito do Ipiranga logo que o nosso D. Pedro se pronunciasse.
O tema do desfile era “A Criação do Mundo – um mundo com Independência”. Separamos os pelotões por subitens, cada um destacando um dia da Criação. As crianças do setor dos animais adoraram a idéia. As meninas dos vegetais capricharam nas alegorias, dando um toque sobre o Meio Ambiente. Adão e Eva sairiam bem vestidos, com roupas feitas de material reciclado, simbolizando a Re-Criação. Até os meninos vestidos de Sol, Lua e Estrelas brilhariam na pequena rua de terra batida. D Pedro I, em seu cavalo, viria ao final, com uma frase de efeito para encerrar o último pelotão e ser a “deixa” para nosso brado heróico e retumbante.
No grande dia, tudo parecia correr bem, ou melhor, desfilar bem. A banda marcial, vinda de uma escola da Sede, apresentava seus primeiros toques. As crianças marchavam sorridentes. A Diretora, encantada, elogiava a todos pelo trabalho.
A comunidade parou para assistir o evento. De todos os cantos, por todos os lados, viam-se rostos de gente sofrida, queimada pelo sol. Trabalhadores da roça, que vinham prestigiar-nos. Mulheres com lenços nas cabeças abrigavam-se sob a sombra das árvores. As autoridades já estavam no palanque: o Prefeito Municipal, a Secretária de Educação do Município, a Chefe do então Subnúcleo de Educação Estadual, alguns vereadores e a Diretora de nossa Escola.
Sol quente de setembro, as coisas começaram a “ferver”. O bode de um dos alunos ficou nervoso com o barulho do bumbo e saiu em disparada no meio da multidão. Corre daqui, corre dali, foi um sufoco até prendê-lo novamente. Um pato voou. Ainda bem que pensaram se tratar de uma evolução. O pior ainda estava por vir: o cavalo de D. Pedro fez uma “parada estratégica” em frente ao palanque e deixou uma “recordação” pelo chão! Alguém gritou um “Viva D. Pedro” para amenizar a situação.
Conforme o combinado, pedimos a palavra. Ouvimos o Hino Nacional. Lemos nosso manifesto e clamamos às autoridades presentes que nos ajudassem a resolver o problema do transporte, a fim de trabalharmos com mais tranqüilidade. Relatamos o cansaço, as horas perdidas nas estradas e todos os riscos que corríamos, enfim.
Um grande silêncio se fez. O Prefeito olhou para os alunos, para a comunidade e para nós, meio surpreso. A Secretária da Educação, então, sorriu e disse que esse 07 de setembro, entraria para a História, pois representava o nosso grito do Ipiranga. Finalmente, o Prefeito convidou-nos para uma reunião em seu gabinete a fim de tratarmos do assunto, que posteriormente foi solucionado. Fomos aplaudidas por todos.
Naquela noite, contemplando as estrelas, fiquei imensamente feliz! Não somente por termos sido ousadas, mas por termos deixado naquelas crianças e naqueles rostos sofridos uma marca, um desejo: lutar por seus direitos. A própria comunidade falava do ocorrido com orgulho.
Ainda hoje, muitos anos depois, quando ouço notícias daquele lugarejo e suas conquistas, orgulho-me de não ter desistido na última hora. Que bom! Esse grito continua ecoando...

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HISTÓRIAS...




O MENINO DO LÁPIS PRETO



Era um menino sisudo, de poucas palavras. Sentava-se na última carteira. Do seu canto, olhava-me com desconfiança. No recreio, isolava-se dos demais. Minhas tentativas de aproximação foram frustradas, até que um dia descobri que ele tinha uma enorme facilidade para desenhar. Porém, todos os seus desenhos eram pintados de preto ou marrom.
Como as crianças costumavam colar seus desenhos no “Cantinho das Artes”, sugeri que também usasse aquele espaço para expor sua criatividade. Ele gostou da idéia, mas desistiu assim que um colega disse que era estranho, pois só pintava os desenhos de preto. Aquele episódio deixou-me intrigada.
Comecei, então, minhas primeiras investigações acerca do “menino do lápis preto”. Teria problemas psicológicos? Seria uma criança reprimida? (Aliás, por que é que nós, professores, temos mania de rotular nossos alunos?)
Descobri que brincava de pique na rua. No campo, jogava bola. E o mais incrível: sabia contar os pontos num jogo de sinuca. Quando alguma bola caía, ele somava todos os pontos da mesa e sabia quais bolas precisava atingir para vencer!
Eu não conseguia entender como uma criança podia agir de um jeito na escola e de outro na rua. Resolvi, então, mudar a dinâmica das aulas. Comprei joguinhos, alguns eu mesma confeccionei com as crianças e procurava textos que falassem sobre futebol. E não é que o garoto esboçou um sorriso lá atrás? Mas os desenhos continuavam a vir de preto.
Depois de muito trabalho, resolvi aplicar meu golpe final: conversaria com ele frente a frente, olhos nos olhos.
Numa sexta-feira, quando o sinal tocou, disse-lhe que precisávamos conversar. Perguntei se estava gostando das aulas. Ele balançou a cabeça com um “sim” meio tímido. Disse-lhe que eu era uma pessoa de confiança e que estaria pronta para ouvi-lo caso tivesse algum problema. Ele apenas sorriu.
Então, tomei coragem e, perguntei-lhe por que só usava lápis preto e marrom para colorir seus desenhos?
- É só isso, professora? – Respondeu-me com outra pergunta - O problema é que eu só tenho esses dois lápis, e fico com vergonha de pedir emprestado...


12 de ago. de 2008

HISTÓRIAS DA VANDINHA





A DESCOBERTA DA MARGARINA

Uma das maravilhas que o professor alfabetizador pode contemplar todos os dias é a descoberta das crianças. É lindo ver os alunos tentando ler os rótulos dos produtos comprados em sua casa, os letreiros das ruas, os livros que encontram à sua frente... Daí a importância de cultivar a leitura na sala de aula. Melhor do que painéis de personagens infantis é dar à criança o acesso à leitura de jornais, revistas, livros, cartazes, ou seja, materiais que possam ser lidos.
Lembro-me de uma aluna que descobriu a “margarina”. Ela chegou à escola correndo e sorrindo, dizendo que havia conseguido ler uma “coisa” na hora do café:
- Professora, professora ( ofegante )! Eu li uma coisa!
- Que bom, eu sempre acreditei em você! O que foi que você leu?
- Eu estava tomando café. Aí eu li no pote: mar...ga...rina! (gritando) A minha avó tomou um susto!
Depois desse diálogo frenético, a sala ficou em polvorosa, pois todos queriam contar suas experiências. Então combinamos que todos deveriam tentar ler alguma coisa diferente nos materiais do “Cantinho da Leitura”. Sentamos no chão e começamos a recortar palavras. Cada um ia colando as palavras que conseguia ler:
- Professora, eu achei uma palavra: “cedo”( lendo a palavra SEDU, que significa SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO ).
- Eu achei “colher” (substantivo). Mas é “colher” ou “colher”(verbo) ?
- Olha, eu achei “pais” ( a palavra era país ).
- Mas é “pais” ou “país”?
- Ah, professora, por isso a gente errou naquela pergunta. Era pra escrever o nome do nosso País e não o nome dos nossos pais...
Então, fomos lendo , colando e discutindo o sentido das palavras. No final, fizemos um texto coletivo.
Se as aulas estão em sintonia com as necessidades dos alunos, são mais produtivas. Essa mesma aluna que descobriu a “margarina” no café da manhã e deu um susto na avó, me deixou sem palavras ao ler em minha camiseta o nome do meu Diretório Acadêmico, que na época se chamava “Liberdade de Expressão”. Que nome adequado àquela situação! Uma criança, descobrindo o mundo através da leitura, precisa ter liberdade de expressão!
Como lecionar para robôs? Como esperar silêncio numa sala em que as mentes estão fervilhando de idéias? Como gerar conhecimento a partir de atividades que privilegiam a cópia e a leitura sem sentido? É preciso repensar a nossa prática.
Todas as manhãs, quando contemplo o potinho de margarina sobre a mesa do café, repito para mim mesma: “ Preciso formar descobridores de margarinas, de biscoitos, de leites...”


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Histórias...

O DADO DE DEDÉ

Quando um professor entra no mundo da Alfabetização, precisa entender que esse mundo é real, e não um mundo paralelo. Descobri isso após uma “interpretação de texto” sobre um dado. Aliás, por que se usava tanto a palavra “dado”?
Num papel kraft escrevi o seguinte:

O DADO
O dado é de Dedé.
Dedé deu o dado a Didi.
O dado caiu.
O dedo de Dedé doeu, doeu.



Seguindo à risca o manual, passamos àquela insólita interpretação de texto:
- De quem é o dado?
- (...)
- Crianças, de quem é o Dado?
- Didi... ( alguém se arrisca meio tímido).
- Gente, leiam o texto! De quem é o dado?
- Dodô? ( Arrisca outro aluno ).
- Dudu? ( mais uma tentativa frustrada ).
Simplesmente fiquei estática. Não sabia o que fazer. O olhar das crianças era de dúvida.
Silêncio geral. De quem seria o dado? Num ato de lucidez, peguei uma folha de papel ofício, recortei vários retângulos e escrevi o nome de duas crianças da sala. Colei por cima dos nomes “Dedé” e “Didi”. Como os alunos já conheciam os nomes uns dos outros, responderam sem pestanejar quando perguntei, desta vez, de quem era o dado.
Texto, para um aluno que está se apropriando de sua língua, é algo que pode ser lido e que precisa ter sentido. Quantas vezes, por pura insegurança, usamos receitas emprestadas. Porém, o que foi válido para alguns pode não servir para outros. Por isso, é preciso muito critério para escolher o caminho a seguir na alfabetização.
Certa vez, uma colega perguntou-me o que deveria fazer para mudar sua prática de sala de aula. Respondi-lhe que o primeiro passo já havia sido dado, isto é, reconhecer que é preciso mudar. Então falei que pensasse na maneira como fazia seu doce de mamão ( ela era uma doceira famosa). O mamão precisa ser sempre ralado? Não pode ser moído? E se eu processá-lo? Posso usar açúcar mascavo? Ponho cravo ou canela? Pode ser em calda, aos pedaços? Misturo coco? Essência de laranja?Casca de limão?
Rapidamente ela compreendeu a mensagem. A mudança ocorre paulatinamente. A essência da receita é a mesma. O que muda é o modo de fazer. Colocamos algo diferente aqui, outro ali. Mudamos o sabor, acrescentamos uma pitadinha de um ingrediente novo, experimentamos... Essa é a graça de alfabetizar! Temos que imprimir nossa marca, transformando o nosso espaço.
Afinal, não somos apenas alfabetizadores, mas...idealizadores de mundos!

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9 de ago. de 2008

Histórias da tia Vanda


Olá, pessoal! Meu nome é Vanda Maria Fernandes Alves. Sou professora de 1ª a 4ª série há 21 anos pelo Estado do Espírito Santo. Amo o que faço e não trocaria de profissão .
É a primeira vez que tenho um espaço legal , junto com minhas colegas de trabalho, para compartilhar minhas experiências em alfabetização.

Durante esses anos de trabalho, colecionei algumas “pérolas” da alfabetização. São verdadeiras mancadas que a gente dá ou coisas engraçadas que acontecem quando as crianças estão se apropriando de nossa língua. Gostaria de chamar esse cantinho de “RIR PARA NÃO CHORAR”, que resume o que eu sentia após essas “falhas nossas” de cada dia...



COMO SURGIU A PULGA

Minha primeira experiência como alfabetizadora foi muito intrigante. Isto porque, ao sair do Curso Normal (antigo Magistério), a gente saía com mil e uma idéias na cabeça, mas não sabia direito como colocá-las em prática...
Chegando à escola, que ficava localizada na zona rural do nosso município,a Diretora me deu um manual grosso, com umas 200 páginas, amarelado, recheado com atividades para colocar em prática o famoso Método Silábico. A cartilha adotada trazia uns cartazes engraçados para mim e estranhos para os alunos. Fui descobrir isso muito tarde, isto é, lá pela família da Jarra.
Nesse dia, levei uma linda jarra de vidro para a sala. Fizemos Q-suco de morango, conversamos sobre a higiene na hora de preparar o suco, as crianças beberam suco, etc, etc, etc. Eu achei que estava abafando! Ensinei a Família da Jarra: ja-je-ji-jo-ju(naquela época ainda não haviam criado o jão). Coloquei o tal cartaz da jarra no varal da parede e fui “tomar” a leitura dos meninos . Qual foi minha surpresa, quando um garotinho leu para mim a palavra “CANELA” onde estava escrito “JANELA”.
Com muita paciência, pedi que o garotinho lesse a palavra novamente, observando a 1ª sílaba, o Ja. O menino lia “ca”. Comecei a ficar nervosa, retirei o cartaz da parede, mostrando-lhe a figura da jarra e pedi que o menino lesse novamente a palavra. Ele insistia no “ca” , sendo que era “ja”. Por fim, respirei fundo, seguindo os conselhos de minha professora de Psicologia. Levantei-me, peguei a jarra que havia levado, apontei para o desenho do cartaz e perguntei novamente ao garoto: “O que você está vendo aqui neste cartaz?” Ele respondeu calmamente: “Um CANECÃO.”
Nesse momento, uma “pulga” pousou atrás de minha orelha direita. E quando essa pulga fala, preciso respeitar sua voz. A pulga me disse que havia algo errado. Não com o menino, é claro. O meu cartaz é que não estava adequado.Como é que eu podia ensinar uma criança a ler e a escrever usando coisas que não pertenciam ao seu mundo? O menino não tinha culpa se na casa dele a mãe fazia o suco no canecão e não na jarra.
Esse episódio mexeu com minhas estruturas mentais. Comecei a refletir sobre minha prática, sobre o tal manual de 200 folhas, sobre métodos de alfabetização e sobre cartilhas. Nas reuniões pedagógicas, comecei a levantar essas questões e fui apresentada ao Construtivismo. Conheci a Epistemologia Genética de Jean Piaget e fiquei fã da Emilia Ferreiro.
Você poderia perguntar: “E aí, professora, como terminou a história do canecão?” A história não terminou aí. Aliás, ela estava acabando de começar. Afinal, alfabetizar é uma grande aventura. Agradeço àquela singela criança, que, em sua inocente insistência, colocou uma pulga atrás de minha orelha, fazendo-me perceber que, por trás daquela carteira, havia um ser pensante.

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“ O I DO ARIBU “

Se você é alfabetizador o título acima não causa estranheza. Esta frase foi dita por uma criança que estava aprendendo as vogais. Nessa época eu ainda estava trabalhando com o Método Silábico, mas a pulga já estava atrás de minha orelha ( leva tempo para mudarmos ).
Minha aluninha não estava conseguindo ler a palavra galinha de jeito nenhum. Nosso inusitado diálogo foi assim naquele dia:
- Querida, você poderia ler esta palavra para mim?
- Ga...li...nha ( gaguejando ).
- Você poderia ler novamente, agora, juntando tudo?
- Carijó!
Naquele momento quase tive um “treco”. Ela lia “ga...li...nha” e falava “carijó”. Mas a conversa não terminou aí:
- O que é “carijó” ?
- É a minha galinha, tia. Ela é preta e branca. Ela é lindinha. Foi minha avó que me deu.
- Você poderia desenhar sua galinha carijó para mim?
- Claro, espera aí...(pegando papel e lápis) Ela é assim...(foi desenhando e colorindo). Pronto, essa é minha galinha carijó.
- Agora, escreva o nome do seu desenho, que eu vou colar no nosso mural.
Ah!...Nessa época eu já tinha um lugar onde colava os desenhos feitos pelas crianças. Já havia arrancado todos os cartazes das “famílias” da cartilha e colado desenhos meus e dos alunos com os nomes embaixo. Aliás, lá estava o desenho do “CANECÃO” ( aquele da história anterior ).
Voltando ao caso da galinha carijó, minha aluna escreveu “ GALIA “. Sem censurá-la, colei o desenho no mural, pedindo que toda a turma lesse a palavra que havia embaixo do mesmo. Os alunos olharam e perceberam que faltava algo na palavra “GALIA”. A discussão foi acalorada, até que chegamos a um consenso e a palavra foi reescrita pela mesma aluna. Conversamos sobre as galinhas de todo mundo, fizemos um texto no quadro sobre a vida das galinhas, enfim, foi bastante proveitoso.
Então, só para ver se as crianças tinham aprendido mesmo a palavra galinha, eu perguntei no final da aula:
- E aí, pessoal, onde estava o erro da palavra “GALIA”?
Um garotinho levantou a mão e disse:
- Eu sei, professora, eu sei. Galinha tem o i do aribu!
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MAIS UMA SOBRE GALINHAS

Um fato que eu adoro é reunião de professores. Principalmente se eles forem alfabetizadores. Nos meus primeiros anos de professora , aprendi com minhas colegas que deveríamos planejar conforme a realidade dos alunos. Como eu trabalhava na zona rural, precisei fazer algumas visitas às casas das crianças.
Numa dessas visitas, encontrei uma galinha que era uma figura! A galinha era cega de nascença e havia sido condicionada pelo barulho de uma latinha. Quando as crianças batiam a lata no chão, a galinha vinha correndo, passando por cima de tudo que era obstáculo, chegando até à latinha com milho.C
Minha aluninha sugeriu que eu fizesse as honras da casa, isto é, alimentasse a Cocó-cega (como era chamada carinhosamente a galinha), só para sentir como era. Foi uma graça! A galinha abaixava e levantava a cabeça, bicando a esmo até acertar a lata. Eu ficava acompanhando os movimentos dela, deixando que comesse o milho até se fartar. Pior foi a hora de dar água, porque era a mesma coisa, só que a gente se molhava toda!
No outro dia, planejei uma bela aula sobre a Cocó-cega. Levei um texto sobre a minha experiência com a galinha e pedi que as crianças o ilustrassem. Lembro-me que elas gostaram muito dessa atividade, porque tinha tudo a ver com suas vidas. Aprendi que ao valorizar o mundo das crianças, elas passaram a dar mais valor ao que escreviam. Eu encontrava frases e frases sobre a Cocó-cega, sobre os cuidados que devemos ter com os animais e até sobre o amor que aquelas crianças tinham por eles. Sem falar na polêmica que foi deflagrada quando um aluno relacionou o problema da galinha cega com o meu problema de visão ( sou míope ). As crianças queriam saber por que eu usava óculos e eles não. Na aula de Artes, então, fizemos óculos de papelão para todos e até descobrimos uma aluna que tinha problemas visuais ( mas isso é outra história...)
Percebi que ler de verdade é isso: é ler o que está nas entrelinhas. Aqueles alunos estavam lendo e escrevendo muito mais do que galinha, ou milho, ou óculos. Eles estavam lendo e escrevendo suas vidas. Mesmo estando na roça, tinham conhecimento prévio e isto nunca pode ser desprezado pelo alfabetizador.
Minhas colegas diziam que seus alunos escreviam “A galinha come milho” tudo certinho, sem erros ortográficos. Eu não ficava preocupada quando os meus escreviam “ A pofesora deu milio pa galia sega”, porque eu sabia que eles estavam tentando escrever por si mesmos e não tinham vergonha disso. Eu achava isso o máximo!


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CAFÉ CORAJOSO E CAFÉ MEDROSO

Continuando minha jornada pelas casas dos alunos, aprendi mais uma com as crianças. Ao chegar à casa de uma delas, recebi um convite para tomar um cafezinho. Meu aluno perguntou se eu queria tomar café corajoso ou café medroso. Imaginando que café corajoso fosse o mais forte, pedi que trouxesse café medroso, pois aprecio mais um café fraco, sem muito pó (geralmente as alfabetizadoras têm gastrite ) .
Fiquei esperando uns 10 minutos e já estava começando a ficar preocupada, quando meu aluno apareceu com o café, um pires com um pedaço de bolo e uma fatia de queijo.
- Para que tudo isso, meu filho? – Disse-lhe, admirada.
- Ora, a senhora pediu café medroso, não foi?- Disse-me ele, com uma carinha suspeita...
- E qual é a diferença entre os dois?
- O café corajoso vem sozinho e o medroso vem acompanhado...
Depois de rirmos um pouco, fiquei pensando na volta pra casa: em Alfabetização, temos que ser como o café medroso, isto é, precisamos de acompanhamentos. Pode ser acompanhamento dos pais, da supervisora, e até das outras professoras e demais funcionários da escola. Alfabetizar-se também não é um processo solitário, mas solidário.
A professora que alfabetiza precisa de alguém para conversar sobre os progressos e retrocessos dos alunos, senão enlouquece. Ela vai às reuniões pedagógicas, fica aflita quando perguntam como estão os seus alunos e mais ainda quando alguém faz aquele comentário tipo “Seus alunos já deram aquele CLIC? “ As professoras mais experientes diziam que o CLIC era lá pelo mês de agosto.
Eu ficava imaginando que CLIC era esse. Será que as crianças tinham algum “botão” que precisava ser acionado para aprender a ler e escrever? E olha que os dois processos são distintos!
Se você é alfabetizadora ou tem vontade de ser, o primeiro passo é aliar-se a um grupo de pessoas que tenha os mesmos anseios, dificuldades semelhantes e objetivos comuns. Até o Planejamento das atividades deve ser feito em grupo, para que não pensemos que estamos voando sozinho ou que estamos fora de órbita.
E da próxima vez que for à casa de um aluno e ele lhe oferecer um cafezinho, peça sempre o medroso. Corajoso... você já é!