12 de ago de 2008




Histórias...

O DADO DE DEDÉ

Quando um professor entra no mundo da Alfabetização, precisa entender que esse mundo é real, e não um mundo paralelo. Descobri isso após uma “interpretação de texto” sobre um dado. Aliás, por que se usava tanto a palavra “dado”?
Num papel kraft escrevi o seguinte:

O DADO
O dado é de Dedé.
Dedé deu o dado a Didi.
O dado caiu.
O dedo de Dedé doeu, doeu.



Seguindo à risca o manual, passamos àquela insólita interpretação de texto:
- De quem é o dado?
- (...)
- Crianças, de quem é o Dado?
- Didi... ( alguém se arrisca meio tímido).
- Gente, leiam o texto! De quem é o dado?
- Dodô? ( Arrisca outro aluno ).
- Dudu? ( mais uma tentativa frustrada ).
Simplesmente fiquei estática. Não sabia o que fazer. O olhar das crianças era de dúvida.
Silêncio geral. De quem seria o dado? Num ato de lucidez, peguei uma folha de papel ofício, recortei vários retângulos e escrevi o nome de duas crianças da sala. Colei por cima dos nomes “Dedé” e “Didi”. Como os alunos já conheciam os nomes uns dos outros, responderam sem pestanejar quando perguntei, desta vez, de quem era o dado.
Texto, para um aluno que está se apropriando de sua língua, é algo que pode ser lido e que precisa ter sentido. Quantas vezes, por pura insegurança, usamos receitas emprestadas. Porém, o que foi válido para alguns pode não servir para outros. Por isso, é preciso muito critério para escolher o caminho a seguir na alfabetização.
Certa vez, uma colega perguntou-me o que deveria fazer para mudar sua prática de sala de aula. Respondi-lhe que o primeiro passo já havia sido dado, isto é, reconhecer que é preciso mudar. Então falei que pensasse na maneira como fazia seu doce de mamão ( ela era uma doceira famosa). O mamão precisa ser sempre ralado? Não pode ser moído? E se eu processá-lo? Posso usar açúcar mascavo? Ponho cravo ou canela? Pode ser em calda, aos pedaços? Misturo coco? Essência de laranja?Casca de limão?
Rapidamente ela compreendeu a mensagem. A mudança ocorre paulatinamente. A essência da receita é a mesma. O que muda é o modo de fazer. Colocamos algo diferente aqui, outro ali. Mudamos o sabor, acrescentamos uma pitadinha de um ingrediente novo, experimentamos... Essa é a graça de alfabetizar! Temos que imprimir nossa marca, transformando o nosso espaço.
Afinal, não somos apenas alfabetizadores, mas...idealizadores de mundos!

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Um comentário:

Jenny Horta disse...

Gostei muito do seu texto: simples e prático. Estou cursando pedagogia no CEDERJ pela UNIRIO e estamos trabalhando muito essa idéia de leitura, saindo dos antigos padrões que não tem sentido algum para as crianças. Vou adicionar seu texto em minha pesquisa (citando os créditos e seu blog), posso?
Voltarei sempre, adorei!