9 de ago de 2008

Histórias da tia Vanda


Olá, pessoal! Meu nome é Vanda Maria Fernandes Alves. Sou professora de 1ª a 4ª série há 21 anos pelo Estado do Espírito Santo. Amo o que faço e não trocaria de profissão .
É a primeira vez que tenho um espaço legal , junto com minhas colegas de trabalho, para compartilhar minhas experiências em alfabetização.

Durante esses anos de trabalho, colecionei algumas “pérolas” da alfabetização. São verdadeiras mancadas que a gente dá ou coisas engraçadas que acontecem quando as crianças estão se apropriando de nossa língua. Gostaria de chamar esse cantinho de “RIR PARA NÃO CHORAR”, que resume o que eu sentia após essas “falhas nossas” de cada dia...



COMO SURGIU A PULGA

Minha primeira experiência como alfabetizadora foi muito intrigante. Isto porque, ao sair do Curso Normal (antigo Magistério), a gente saía com mil e uma idéias na cabeça, mas não sabia direito como colocá-las em prática...
Chegando à escola, que ficava localizada na zona rural do nosso município,a Diretora me deu um manual grosso, com umas 200 páginas, amarelado, recheado com atividades para colocar em prática o famoso Método Silábico. A cartilha adotada trazia uns cartazes engraçados para mim e estranhos para os alunos. Fui descobrir isso muito tarde, isto é, lá pela família da Jarra.
Nesse dia, levei uma linda jarra de vidro para a sala. Fizemos Q-suco de morango, conversamos sobre a higiene na hora de preparar o suco, as crianças beberam suco, etc, etc, etc. Eu achei que estava abafando! Ensinei a Família da Jarra: ja-je-ji-jo-ju(naquela época ainda não haviam criado o jão). Coloquei o tal cartaz da jarra no varal da parede e fui “tomar” a leitura dos meninos . Qual foi minha surpresa, quando um garotinho leu para mim a palavra “CANELA” onde estava escrito “JANELA”.
Com muita paciência, pedi que o garotinho lesse a palavra novamente, observando a 1ª sílaba, o Ja. O menino lia “ca”. Comecei a ficar nervosa, retirei o cartaz da parede, mostrando-lhe a figura da jarra e pedi que o menino lesse novamente a palavra. Ele insistia no “ca” , sendo que era “ja”. Por fim, respirei fundo, seguindo os conselhos de minha professora de Psicologia. Levantei-me, peguei a jarra que havia levado, apontei para o desenho do cartaz e perguntei novamente ao garoto: “O que você está vendo aqui neste cartaz?” Ele respondeu calmamente: “Um CANECÃO.”
Nesse momento, uma “pulga” pousou atrás de minha orelha direita. E quando essa pulga fala, preciso respeitar sua voz. A pulga me disse que havia algo errado. Não com o menino, é claro. O meu cartaz é que não estava adequado.Como é que eu podia ensinar uma criança a ler e a escrever usando coisas que não pertenciam ao seu mundo? O menino não tinha culpa se na casa dele a mãe fazia o suco no canecão e não na jarra.
Esse episódio mexeu com minhas estruturas mentais. Comecei a refletir sobre minha prática, sobre o tal manual de 200 folhas, sobre métodos de alfabetização e sobre cartilhas. Nas reuniões pedagógicas, comecei a levantar essas questões e fui apresentada ao Construtivismo. Conheci a Epistemologia Genética de Jean Piaget e fiquei fã da Emilia Ferreiro.
Você poderia perguntar: “E aí, professora, como terminou a história do canecão?” A história não terminou aí. Aliás, ela estava acabando de começar. Afinal, alfabetizar é uma grande aventura. Agradeço àquela singela criança, que, em sua inocente insistência, colocou uma pulga atrás de minha orelha, fazendo-me perceber que, por trás daquela carteira, havia um ser pensante.

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“ O I DO ARIBU “

Se você é alfabetizador o título acima não causa estranheza. Esta frase foi dita por uma criança que estava aprendendo as vogais. Nessa época eu ainda estava trabalhando com o Método Silábico, mas a pulga já estava atrás de minha orelha ( leva tempo para mudarmos ).
Minha aluninha não estava conseguindo ler a palavra galinha de jeito nenhum. Nosso inusitado diálogo foi assim naquele dia:
- Querida, você poderia ler esta palavra para mim?
- Ga...li...nha ( gaguejando ).
- Você poderia ler novamente, agora, juntando tudo?
- Carijó!
Naquele momento quase tive um “treco”. Ela lia “ga...li...nha” e falava “carijó”. Mas a conversa não terminou aí:
- O que é “carijó” ?
- É a minha galinha, tia. Ela é preta e branca. Ela é lindinha. Foi minha avó que me deu.
- Você poderia desenhar sua galinha carijó para mim?
- Claro, espera aí...(pegando papel e lápis) Ela é assim...(foi desenhando e colorindo). Pronto, essa é minha galinha carijó.
- Agora, escreva o nome do seu desenho, que eu vou colar no nosso mural.
Ah!...Nessa época eu já tinha um lugar onde colava os desenhos feitos pelas crianças. Já havia arrancado todos os cartazes das “famílias” da cartilha e colado desenhos meus e dos alunos com os nomes embaixo. Aliás, lá estava o desenho do “CANECÃO” ( aquele da história anterior ).
Voltando ao caso da galinha carijó, minha aluna escreveu “ GALIA “. Sem censurá-la, colei o desenho no mural, pedindo que toda a turma lesse a palavra que havia embaixo do mesmo. Os alunos olharam e perceberam que faltava algo na palavra “GALIA”. A discussão foi acalorada, até que chegamos a um consenso e a palavra foi reescrita pela mesma aluna. Conversamos sobre as galinhas de todo mundo, fizemos um texto no quadro sobre a vida das galinhas, enfim, foi bastante proveitoso.
Então, só para ver se as crianças tinham aprendido mesmo a palavra galinha, eu perguntei no final da aula:
- E aí, pessoal, onde estava o erro da palavra “GALIA”?
Um garotinho levantou a mão e disse:
- Eu sei, professora, eu sei. Galinha tem o i do aribu!
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MAIS UMA SOBRE GALINHAS

Um fato que eu adoro é reunião de professores. Principalmente se eles forem alfabetizadores. Nos meus primeiros anos de professora , aprendi com minhas colegas que deveríamos planejar conforme a realidade dos alunos. Como eu trabalhava na zona rural, precisei fazer algumas visitas às casas das crianças.
Numa dessas visitas, encontrei uma galinha que era uma figura! A galinha era cega de nascença e havia sido condicionada pelo barulho de uma latinha. Quando as crianças batiam a lata no chão, a galinha vinha correndo, passando por cima de tudo que era obstáculo, chegando até à latinha com milho.C
Minha aluninha sugeriu que eu fizesse as honras da casa, isto é, alimentasse a Cocó-cega (como era chamada carinhosamente a galinha), só para sentir como era. Foi uma graça! A galinha abaixava e levantava a cabeça, bicando a esmo até acertar a lata. Eu ficava acompanhando os movimentos dela, deixando que comesse o milho até se fartar. Pior foi a hora de dar água, porque era a mesma coisa, só que a gente se molhava toda!
No outro dia, planejei uma bela aula sobre a Cocó-cega. Levei um texto sobre a minha experiência com a galinha e pedi que as crianças o ilustrassem. Lembro-me que elas gostaram muito dessa atividade, porque tinha tudo a ver com suas vidas. Aprendi que ao valorizar o mundo das crianças, elas passaram a dar mais valor ao que escreviam. Eu encontrava frases e frases sobre a Cocó-cega, sobre os cuidados que devemos ter com os animais e até sobre o amor que aquelas crianças tinham por eles. Sem falar na polêmica que foi deflagrada quando um aluno relacionou o problema da galinha cega com o meu problema de visão ( sou míope ). As crianças queriam saber por que eu usava óculos e eles não. Na aula de Artes, então, fizemos óculos de papelão para todos e até descobrimos uma aluna que tinha problemas visuais ( mas isso é outra história...)
Percebi que ler de verdade é isso: é ler o que está nas entrelinhas. Aqueles alunos estavam lendo e escrevendo muito mais do que galinha, ou milho, ou óculos. Eles estavam lendo e escrevendo suas vidas. Mesmo estando na roça, tinham conhecimento prévio e isto nunca pode ser desprezado pelo alfabetizador.
Minhas colegas diziam que seus alunos escreviam “A galinha come milho” tudo certinho, sem erros ortográficos. Eu não ficava preocupada quando os meus escreviam “ A pofesora deu milio pa galia sega”, porque eu sabia que eles estavam tentando escrever por si mesmos e não tinham vergonha disso. Eu achava isso o máximo!


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CAFÉ CORAJOSO E CAFÉ MEDROSO

Continuando minha jornada pelas casas dos alunos, aprendi mais uma com as crianças. Ao chegar à casa de uma delas, recebi um convite para tomar um cafezinho. Meu aluno perguntou se eu queria tomar café corajoso ou café medroso. Imaginando que café corajoso fosse o mais forte, pedi que trouxesse café medroso, pois aprecio mais um café fraco, sem muito pó (geralmente as alfabetizadoras têm gastrite ) .
Fiquei esperando uns 10 minutos e já estava começando a ficar preocupada, quando meu aluno apareceu com o café, um pires com um pedaço de bolo e uma fatia de queijo.
- Para que tudo isso, meu filho? – Disse-lhe, admirada.
- Ora, a senhora pediu café medroso, não foi?- Disse-me ele, com uma carinha suspeita...
- E qual é a diferença entre os dois?
- O café corajoso vem sozinho e o medroso vem acompanhado...
Depois de rirmos um pouco, fiquei pensando na volta pra casa: em Alfabetização, temos que ser como o café medroso, isto é, precisamos de acompanhamentos. Pode ser acompanhamento dos pais, da supervisora, e até das outras professoras e demais funcionários da escola. Alfabetizar-se também não é um processo solitário, mas solidário.
A professora que alfabetiza precisa de alguém para conversar sobre os progressos e retrocessos dos alunos, senão enlouquece. Ela vai às reuniões pedagógicas, fica aflita quando perguntam como estão os seus alunos e mais ainda quando alguém faz aquele comentário tipo “Seus alunos já deram aquele CLIC? “ As professoras mais experientes diziam que o CLIC era lá pelo mês de agosto.
Eu ficava imaginando que CLIC era esse. Será que as crianças tinham algum “botão” que precisava ser acionado para aprender a ler e escrever? E olha que os dois processos são distintos!
Se você é alfabetizadora ou tem vontade de ser, o primeiro passo é aliar-se a um grupo de pessoas que tenha os mesmos anseios, dificuldades semelhantes e objetivos comuns. Até o Planejamento das atividades deve ser feito em grupo, para que não pensemos que estamos voando sozinho ou que estamos fora de órbita.
E da próxima vez que for à casa de um aluno e ele lhe oferecer um cafezinho, peça sempre o medroso. Corajoso... você já é!

Um comentário:

Anônimo disse...

Legal minha irmã, eu quando pindurei as minhas chuteiras eu falei que eu não queria mais saber de educação,mas lendo o seu blogue deu uma saudade assim bem de longe... como voce sabe eu não peguei essa nova tecnologia, mas fico muito feliz porque voces irão formar seres ELOQÜENTES.
CONTINUEM Não desanimem.