12 de ago de 2008

HISTÓRIAS DA VANDINHA





A DESCOBERTA DA MARGARINA

Uma das maravilhas que o professor alfabetizador pode contemplar todos os dias é a descoberta das crianças. É lindo ver os alunos tentando ler os rótulos dos produtos comprados em sua casa, os letreiros das ruas, os livros que encontram à sua frente... Daí a importância de cultivar a leitura na sala de aula. Melhor do que painéis de personagens infantis é dar à criança o acesso à leitura de jornais, revistas, livros, cartazes, ou seja, materiais que possam ser lidos.
Lembro-me de uma aluna que descobriu a “margarina”. Ela chegou à escola correndo e sorrindo, dizendo que havia conseguido ler uma “coisa” na hora do café:
- Professora, professora ( ofegante )! Eu li uma coisa!
- Que bom, eu sempre acreditei em você! O que foi que você leu?
- Eu estava tomando café. Aí eu li no pote: mar...ga...rina! (gritando) A minha avó tomou um susto!
Depois desse diálogo frenético, a sala ficou em polvorosa, pois todos queriam contar suas experiências. Então combinamos que todos deveriam tentar ler alguma coisa diferente nos materiais do “Cantinho da Leitura”. Sentamos no chão e começamos a recortar palavras. Cada um ia colando as palavras que conseguia ler:
- Professora, eu achei uma palavra: “cedo”( lendo a palavra SEDU, que significa SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO ).
- Eu achei “colher” (substantivo). Mas é “colher” ou “colher”(verbo) ?
- Olha, eu achei “pais” ( a palavra era país ).
- Mas é “pais” ou “país”?
- Ah, professora, por isso a gente errou naquela pergunta. Era pra escrever o nome do nosso País e não o nome dos nossos pais...
Então, fomos lendo , colando e discutindo o sentido das palavras. No final, fizemos um texto coletivo.
Se as aulas estão em sintonia com as necessidades dos alunos, são mais produtivas. Essa mesma aluna que descobriu a “margarina” no café da manhã e deu um susto na avó, me deixou sem palavras ao ler em minha camiseta o nome do meu Diretório Acadêmico, que na época se chamava “Liberdade de Expressão”. Que nome adequado àquela situação! Uma criança, descobrindo o mundo através da leitura, precisa ter liberdade de expressão!
Como lecionar para robôs? Como esperar silêncio numa sala em que as mentes estão fervilhando de idéias? Como gerar conhecimento a partir de atividades que privilegiam a cópia e a leitura sem sentido? É preciso repensar a nossa prática.
Todas as manhãs, quando contemplo o potinho de margarina sobre a mesa do café, repito para mim mesma: “ Preciso formar descobridores de margarinas, de biscoitos, de leites...”


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